Mensagem do pastor Renato Küntzer no Culto de Ação de Graças da Comunidade São Paulo de Três de Maio - RS
Sexta-feira, dia 26 de junho de 2015

Mateus 6.25-33


Em relação ao texto escolhido para a reflexão do culto de ação de graças, já adianto que não tem como a gente esgotar toda a sua riqueza e os diversos acentos que a reflexão poderia nos proporcionar. Fico com duas questões centrai, vocês vão perceber, que o texto nos traz. Uma delas é a questão do que nos traz o sentido da vida e a outra o conflito humano de ter ou ser. E isto faz a nossa relação com Deus e com o próximo, define a nossa riqueza ou pobreza na fé e vivencia da proposta comunitária.

1.     Jesus traz à tona uma questão humana, religiosa e social de seu tempo e que é uma questão humana atual: o sentido da vida do ser humano está em ter mais ou ser mais.

2.     O texto está no contexto de uma discussão que é motivo de um conflito na fé: servir ao dinheiro e prestar culto às posses materiais ou confiar e servir a Deus.

3.     A fala de Jesus é provocativa, questionadora, incomoda. "Não se preocupem com a comida, a bebida, com a roupa... afinal a vida não é mais importante"?

Nenhum de vocês pode encompridar a sua vida, por mais que se preocupe com isso. Vejam os passarinhos, vejam as flores, a erva do campo.

É certo que Deus vestirá vocês, que tem uma fé tão pequena: por que vocês se preocupam: "onde vamos arranjar comida, bebida, roupas?"

Aqui está o centro do questionamento e da situação conflitiva. A preocupação em arranjar, em ter, é a preocupação de ter mais. Passa a ser uma preocupação doentia de posses que não consegue mais confiar em Deus e nega a Ele a gratidão.

Há nisto um sério risco : perder-se numa vida deserta e vazia. Não conseguimos, em longo prazo, viver sem um sentido de vida. Afinal, vazios querem ser preenchidos. Também o vazio da vida. Até o refinado marketing de consumo descobriu isto e se dispõem a preencher o vazio da nossa vida. Mas tudo o que nos oferece não preenche o vazio. Cada vez mais entupidos de bens de consumo, permanecemos vazios no sentido de vida.  A sociedade moderna está sempre tentando satisfazer necessidades, mas principalmente desejos compensadores ou substitutivos das necessidades, de tal modo que cheios de bens, estamos vazios por dentro. A modernidade cria novas necessidades e desejos que vai desenraizando as pessoas, alienando-as de suas tradições e valores e referencias de vida. Nós nos encontramos naquilo em que nos perdemos. A procura pelo sentido da vida é algo bem prático. Se dá nos pequenos ou grandes atos de doação. Na medida em que a gente se doa em favor de uma causa, um ideal, uma tarefa, uma pessoa, preenchemos o vazio e experimentamos o sentido da vida. A esta experiência pertencem sentimentos como satisfação, alegria, vontade. Não procuramos por cada um destes sentimentos em si, mas pelo fundamento que nos provoca estes sentimentos. Até podemos fazer algo que nos dê alegria, como um passeio, a leitura de um livro, encontro, mas são apenas experiências para as quais damos certo tempo na nossa vida. Nosso desejo de doação é mais profundo. Estamos à procura de algo ou alguém a que possam os nos doar de coração. No que prenderes o teu coração, ali estará o teu sentido de vida.

 

Ao homem do ter

 

 A você, que se atreve a negar sua ajuda aos outros,

 a desconhecer o direito dos pequenos,

 a vingar-se por qualquer decepção,

 a sentir-se dono absoluto de seus bens,

 a explorar seus dependentes...

 Hoje,

 Você não pediu a luz

 E o sol surgiu com a generosidade de sempre

 Você não pediu o ar

 E o respira com a fartura de todo o dia.

 Você não pediu a vida

 E ela mais uma vez lhe foi dada, sem reclamações

 Você não pediu o conforto, a saúde, o dinheiro, o bem-estar

 E tudo isso não lhe foi tirado.

 Você não pediu a chuva

 E ela fecundou prodigamente os seus campos.

 Você não pediu os frutos da terra

 E seus armazéns estão repletos deles.

 Você não pediu as coisas bonitas do universo

 E continua admirando-as.

 Você não pediu o amor de pessoas queridas

 E elas o cercam ainda hoje com muito carinho.

 Você não pediu perdão por seus erros

 E Deus não desistiu de amá-lo.

 Você não pediu...

 E mesmo assim, recebeu gratuitamente.

 Como pode dizer "não" a quem clama pelo necessário,

 Se você está gozando do supérfluo que não lhe pertence?

 Como pode pensar que Deus

 Fez este universo e o que contém só para você,

 Descriminando as pessoas?

 Como pode chamar-se de "dono"

Se não é dono de sua estatura, de seus cabelos, de sua idade

 E a morte lhe arrebata tudo?

 Como pode recusar-se a servir quem lhe pede,

 Se você está usufruindo até aquilo que não se lembrou de pedir?

 Se não mudar, tenha cuidado: a paciência

 De Deus e dos empobrecidos pode esgotar.

 E de você e suas riqueza injusta não sobrará nem a lembrança.

 Pe. Víto Miracapillo

            Deveria haver aqui um agradecimento geral por todos os benefícios que Deus demonstra ao mundo inteiro. Deus cria, dá a vida, protege e conserva a mesma. E tudo isso em abundância e com sobra, todos os anos, todos os dias, a toda hora. Deus nos dá, protege e preserva os bens comuns. Aqueles necessários para o sustento do dia a dia. Que grande alegria é ter casa, lavoura, saúde, educação, bons vizinhos, amigos, família, alimento, roupas, chuva, sol... Esses bens de Deus são os maiores, os mais necessários e os mais desprezados, pois por serem comuns, ninguém agradece por eles. Os tomamos e os usamos diariamente como se não pudesse ser diferente e como se fosse nosso direito, sem agradecer a Deus uma única vez por eles. Entretanto fazemos todo empenho, nos preocupamos, brigamos, e nos enfurecemos por dinheiro e bens supérfluos, por méritos, honra e prazer. Em resumo, por coisas que sequer chegam aos pés dos bens mencionados acima e que não nos valem nem centésima parte. Louvar e agradecer a Deus é o culto mais sublime, assim como a ingratidão é o vício mais prejudicial.

Antes de pensarmos e agirmos, Deus dá livremente, por amor, tudo o que temos necessidade. Deus não retribui. Ele é doador que se antecipa. Aqui está o sentido da reflexão final de Jesus que recomenda: "não fiquem preocupados com o dia de amanhã."